Lição de ouvido
Outro dia - mais precisamente no último feriado - fui ao bar de uma amiga, levada pela vontade comichante, de ouvir um bom samba. Aquele velho e bom pagode de mesa, sabe?
Saímos de casa pra comer um caranguejo por obra e graça da graça da minha mãe, que fez o convite, porque ultimamente estou economizando até espirro. Eu, na verdade, saí de casa pensando no tal do pagode; o caranguejo era tabelinha, porque não queria correr o risco de acabar com o programa antes de ter chances concretas de realizá-lo. E chances concretas, nesse caso, era dar umas cinco cervejinhas pra animar o maridão. Queria mexer com o bicho da cachaça, pra dar o bote final. Mas “qual o que”, como diria Chico Burque, como que possuído do nosso sexto sentido, marido vetou o programa logo no primeiro “vocês vão?”. Sonoro NÃO, que eu ouvi.
Fiz bico, amarrei cara, conversei de canto de boca, mal disse a vida de casada, festejei as ilustres solteiras, chamei pra ir “simbora” e caminhei pro carro sem as mãos dadas de costume, sinal claro de que a birra era séria.
Rumamos pro bar, deixar minha mãe e as outras solteiras de plantão, que não perdem um pagode sequer. Mami, com aquele jeito manso disse: fica, marido dela, fica um pouquinho... e ele desceu. Eu, a essa altura, tava mesmo era emburrada, e quando a criatura emburra, parece mula empacada.
Descemos. Desce uma Brahma. Mais uma branquinha. Uma geladinha. Vem a Alcione. Mais um copinho, mais da cervejinha... um Almir Guineto, Zeca Pagodinho, outra bem gelada... e a mula já soltava as pernas e desamarrava a cara. Samba do bom, cantora das boas... Aí lá vem aquele velho chato que vem com aquela velha “canja” que é aquele velho “temporal” gritado entre um abrir de braços afetados e dramáticos. Disse aff... (como de costume). Praguejei, e nessa hora mais valeu eu já estar mordida mesmo. Disse que não agüentava mais aquela criatura gritando aquele mesmo repertório infame. Minha mãe, rindo e cantando de lado, sem a pretensão de nada me ensinar, disse “eu gosto, gosto de ver. Ele canta com a alma. Ele está feliz.” E naquele momento entendi, que os meus ouvidos sabem muito menos do que o coração da minha mãe é capaz de ensinar. E eu passei a olhá-lo com outros olhos. Ou ouvi-lo com outros ouvidos?
Deixa a vida me levar
[Zeca Pagodinho]
Eu já passei por quase
tudo nessa vida
Em matéria de guarida
não chegou a minha vez
Confesso que sou de origem pobre
Mas meu coração é nobre,
foi assim que Deus me fez
E deixa a vida me levar
Vida leva eu
E deixa a vida me levar
Vida leva eu
E deixa a vida me levar
Vida leva eu
Tô feliz e agradeço
por tudo que Deus me deu
Só posso levantar a mão pro céu
Agradecer e ser fiel
ao destino que Deus me deu
Se não tenho tudo que preciso
Com o pouco que tenho, vivo
De mansinho, lá vou eu
Se a coisa não sai do jeito que quero
Também não me desespero
O negocio é deixar rolar
E aos trancos e barrancos, lá vou eu
E sou feliz e agradeço
por tudo que Deus me deu
Deixa a vida me levar
Vida leva eu
E deixa a vida me levar
Vida leva eu
E deixa a vida me levar
Vida leva eu
Tô feliz e agradeço
por tudo que Deus me deu
Eu já passei por quase
tudo nessa vida
Em matéria de guarida
não chegou a minha vez
Confesso que sou de origem pobre
Mas meu coração é nobre,
foi assim que Deus me fez
E deixa a vida me levar
Vida leva eu
E deixa a vida me levar
Vida leva eu
E deixa a vida me levar
Vida leva eu
Tô feliz e agradeço
por tudo que Deus me deu
Só posso levantar a mão pro céu
Agradecer e ser fiel
ao destino que Deus me deu
Se não tenho tudo que preciso
Com o pouco que tenho, vivo
De mansinho, lá vou eu
Se a coisa não sai do jeito que quero
Também não me desespero
O negocio é deixar rolar
E aos trancos e barrancos, lá vou eu
E sou feliz e agradeço
por tudo que Deus me deu
Deixa a vida me levar
Vida leva eu
Ei amor, você viu onde deixei aquele sorriso? Aquele que ia de canto a canto do rosto e que você dizia que iluminava o dia? Não, não, esse aí é aquele amarelo que sobrou do fim do ano passado em que não trocamos presentes, nem juras de amor eterno como de costume. Também não sei onde foi parar aquele fechar de olhos quando ria das minhas piadas sem graça, de que eu tanto gostava. Será que se perdeu em algum canto de gaveta da cômoda junto com a naftalina? Será que estaria na pasta de contas pagas? Ou enfeita agora o guarda-roupa de outro quarto com um vestido que não é meu?
Você foi saindo de mimCom palavras tão levesDe uma forma tão brandaDe quem partiu alegreVocê foi saindo de mimCom um sorriso impuneComo se toda faca não tivesseDois gumesVocê foi saindo de mimDevagar e pra sempreDe uma forma sinceraDefinitivamenteVocê foi saindo de mimPor todos os meus porosE ainda está saindoNas vezes em que choroNas vezes em que choro
*me aventurando por cores que não são minhas.
