Era magricela. Tinha uns grandes cabelos castanhos bem claros quase sempre amarrados em trança. Evitar os “hóspedes” – vovó dizia. Do rosto saltava aqueles grandes e expressivos olhos acompanhados daquele sorriso rasgado que ia de ponta a ponta do rosto. Não parava. A moleca era matreira, aprontadeira, espevitada. Tínhamos uns cinco anos quando nos conhecemos. Estudávamos no mesmo colégio, só que em turnos diferentes. Em comum havia a “Tia Lili” – tia dela, que recebia os alunos no colégio. Quando descobriu que morávamos próximos, Tia Lili se prontificou a me levar e me trazer do colégio, já que ia trabalhar. Da amizade dela com minha mãe, nasceu a minha e a da Taty. Passei a freqüentar e amar aquela casa. Fiz do Vovô Egberto e da Vovó Mirtes meu avós e me dei toda a família [ou eles me deram a si, tamanha a acolhida?].
Seguimos pela pré – adolescências. Nos “intrigamos” por algumas vezes; nunca nos apaixonamos pelo mesmo menino, mas vi o menino que eu gostava se apaixonar por ela. Fomos ao primeiro show de rock juntas, aos 13 anos. Imploramos ao porteiro para entrar no show do Caetano Veloso porque não conseguimos dinheiro pra pagar. Tomamos os primeiros porres. Cuidamos uma da outra. Choramos ouvindo música.
Contamos dinheiro pra pagar um Mc’ Donalds em Fortaleza na copa de 94. Brigamos muito e quase nos mijamos de rir das brigas minutos depois. Sentimos dor. Abraçadas suportamos a dor da partida da vovó. Apoiadas uma na outra consolamos outras tantas dores individuais. Rodamos de fusca essa cidade inteira. Amanhecemos muitos dias. Voltamos gargalhando pra casa em muitas manhãs. Choramos ao telefone. Brincamos na “micarina”. Quase fomos aos tapas.
Contaria muitas e muitas histórias, se aqui coubesse. Vinte e quatro anos mais ou menos se passaram sem que eu consiga lembrar de um único momento em que ela não estivesse comigo, mesmo em pensamento. Hoje é aniversário dela e ela está há milhares de quilômetros do meu abraço. Está em Monpelier, na França, ganhando o mundo que é bem dela. Sei que às vezes fica triste e se sente só. Mas não está, viu? Picaxu!? Estamos aqui, todos nós, torcendo para que realize todos os seus planos e sonhos, e rogando a Deus que te proteja e ilumine.
Temos certeza que muito sol se abrirá em teus caminhos, porque sabemos que você não espera ele nascer, vai lá e arranca ele com a mão se ele insistir em não brilhar. Me orgulho da mulher linda, inteligente, corajosa, leal, batalhadora, honesta e amiga que és. Te amo muito, minha irmã. A felicidade que desejo pra mim, é a que te desejo. Deus te guarde!
Na madrugada do última sábado o professor Hélio foi barbaramente assassinado numa tentativa de assalto.
Nossa cidade, antes tão pacata está entregue aos marginais e as autoridades [in] competentes só se prestam a tolher nossos direito numa medida meramente paliativa [e ridícula] que é o “Boa noite, Teresina” ou “toque de recolher”. A polícia está na rua, mas pasmem, não é para nos proteger, mas para nos obrigar a ir pra casa.
Não podemos calar.
MANIFESTAÇÃO PACÍFICA
SEXTA, DIA 30, ÀS 4:30 HORAS NO ADRO DA IGREJA DE SÃO BENEDITO, vamos promover um encontro em defesa da segurança.
TODOS VESTIDOS DE BRANCO, vamos chamar a atenção da sociedade para o grave problema da violência em Teresina, que acabou nos levando o nosso querido Professor Hélio.
O MOMENTO NÃO É DE REVOLTA, MAS DE UNIÃO.
Vamos todos dar as mãos nesse ato público e de solidariedade. Precisamos nos mexer, soltar a voz e clamar por SEGURANÇA!
Contamos com você!

Parecia flutuar, o rosto dele naquele mar de flores. Meu pai apertava suas mãos frias como que tentando eternizar a ‘benção’. Eu, lamentava não ter tido ‘tempo’, ‘afinidade’, ‘competência’ pra garimpar o carinho daquele velho negro franzino e sisudo, que na verdade era engraçado, inteligente e generoso.
Adeus, meu avô. Sinto muito ter compreendido tão tarde o quanto eras importante pra mim. Fica com Deus, olha por nós.
* tenho muito a dizer sobre esses dias de perda, mas por conta de um pequeno acidente doméstico minha mão dói me impedindo de digitar muito. Devo confessar que minha cabeça também não está muito boa. Por isso só registro a morte do professor Hélio quem eu pouco conheci, mas que muito soube o quanto era especial.
