Elas andam se desentendendo. Todas elas. Exatamente todas, das tantas quantas posso ser. Nessa briga foi aquela que canta alto “I will survive” quem saiu perdendo. Foi aquela que inventa coreografias desengonçadas pra musicas toscas. Foi a que se diverte prestando atenção no povo na rua enquanto enfrenta o engarrafamento, quem sucumbiu. A melancólica e confusa menina de treze anos venceu a segura mulher de scarpin, esses dias. A serelepe moreninha de cabelos pixaim se escondeu embaixo da cama com medo de bicho-papão... mal sabia que era dentro dela que ele se escondia. Não entraram num acordo, como era de se esperar. Deram trégua, mas não sossego. Só uma concessão fizeram: deixaram a gordinha míope, de aparelho nos dentes, ir ao show do Vavá Ribeiro. E lá ela ouviu Vandré Lee. E concluiu que queria mesmo era algo pra beber, e deu uma bela rasteira em todas as outras que dentro de si faziam um reboliço, e foi rir e ser feliz vendo seu marido tocar... Oh as long as I know how to love I know I'll stay alive; / I've got all my life to live, / I've got all my love to give and I'll survive, / I will survive. Hey hey.
Onde Deus possa me ouvir
Sabe o que eu queria agora, meu bem...?
Sair chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também
Que me oferecesse um colo ou um ombro
Onde eu desaguasse todo desegano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém.
Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Pra entender porque se agridem
Se empurram pro abismo
Se debatem, se combatem sem saber
Meu amor...
Deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir
Minha dor...
Eu não consigo compreender
Eu quero algo pra beber
Me deixe aqui pode sair.
Adeus...
[Vander Lee]
* Clica aí em baixo e ouve o que elas estão ouvindo agora... a única unanimidade em muitos dias. Rs.
http://www.tempoesia1.hpgvip.ig.com.br/midi/Discoteca/Gloria_Gaynor/I_Will_Survive.mid
Tenho uma série de coisa pra resolver cá dentro de mim. Não vou desfiar meu rosário de problemas, nem minha compilação de defeitos. Sei, e sinto, que meu coração pulsa ao sabor de minhas angústias e frustrações. Tenho respirado mal e ficado ofegante. Tenho, há anos, pendências e dividas a serem pagas a mim mesma: promessas não cumpridas, verdades não ditas, coisas não contadas, sonhos esquecidos. Tudo isso vem me perturbando esses dias. Latejando mesmo, na cabeça que dói quase o dia inteiro. Mas ontem, em casa, enquanto tomava café com bolo de creme-de-leite e passas, e conversava deliciosas potocas, ouvi o som da minha primeira gargalhada em três dias. Ouvi e senti reverberar pelo meu peito, o som da minha própria gargalhada, daquela que dizem ser ímpar, minha marca. Aquilo me trouxe de volta. Não resolvi, ainda, os problemas. Ainda não sei o que faço com minhas frustrações. Continuo descontente comigo mesma, mas agora sei que a cura para todos os meus males está aqui dentro, e ela - a cura - começa com minha gargalhada. Não posso, nem quero, fugir das minhas pequenas e amadas alegrias.
* Minh’Ucha, obrigada por me fazer ver, sem nada dizer, que é impossível ser eu, sem ser alegre, sem enloucrescer.
A cura
Existirá
Em todo porto tremulará
A velha bandeira da vida
Acenderá
Todo farol iluminará
Uma ponta de esperança
E se virá
Será quando menos se esperar
Da onde ninguém imagina
Demolirá
Toda certeza vã
Não sobrará
Pedra sobre pedra
Enquanto isso
Não nos custa insistir
Na questão do desejo
Não deixar se extinguir
Desafiando de vez a noção
Na qual se crê
Que o inferno é aqui
Existirá
E toda raça então experimentará
Para todo mal
A cura
Existirá
Em todo porto tremulará
A velha bandeira da vida
Acenderá
Todo farol iluminará
Uma ponta de esperança
E se virá
Será quando menos se esperar
Da onde ninguém imagina
Demolirá
Toda certeza vã
Não sobrará
Pedra sobre pedra
Enquanto isso
Não nos custa insistir
Na questão do desejo
Não deixar se extinguir
Desafiando de vez a noção
Na qual se crê
Que o inferno é aqui
Existirá
E toda raça então experimentará
Para todo mal
A cura
[lulu santos]

Nem amarelo no sorriso dela pintaram hoje. Não é buraco negro. Sobrou cinza. Nem preto nem branco. Nem quente nem frio. Assim assim... nem mais, nem menos. Hoje é o meio termo que ela detesta. Está com as pálpebras pesadas, os cantos da boca pendendo para baixo e as covinhas entre as sobrancelhas à mostra. Não está nem infeliz nem feliz. Ela simplesmente não está! Não está disposta a pensar em nada que a tire desse estágio vergonhoso de melancolia. Alguém aí poderia esclarecê-la do real significado dessa palavra que a acompanha desde que se entende por gente? É... ela explicou sobre as variáveis na legenda da linda gargalhada aí do lado. Hoje ela é a incógnita, e é [-]. E [-] x [+] dá [-]. Dessa aula ela lembra.
Desculpa, mas uma coisa que ela não aprendeu, e nem quer, é a fingir o que sente.
Roda viva
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...
[chico buarque]
